A ideia da fábula é personificar objetos ou animais. Como exemplo foi-se usado a ótima A Agulha e a Linha, de Machado de Assis.
Os Dentes e os Bicos
A vida era simples na Granja Pio XII. Todas as manhãs a comida era reposta pelos homens, e isso era para os frangos o evento o mais interessante do dia - não só por saberem que poderiam encher suas panças, mas por ser entreterem ao ver como isso era feito. Talvez, esse acontecimento só fosse superado quando alguns de seus companheiros eram levados para fora pelos mesmos homens. Embora fosse bom ter mais espaço para circular, isso causava discussões filosóficas momentâneas por toda a granja. “O que aconteceria com os escolhidos?” Se perguntavam os frangos. Alguns chegavam a idealizar este momento, imaginando que além daquele teto, encontrariam um lugar uma ração muito mais gostosa. Outros simplesmente ignoravam e continuavam a comer.
Nosso protagonista era um frango que, assim como todos os outros, não possuía o nome. O dia tão esperado chegara para ele, e junto de uma meia dúzia, fora tirado de seu mundo. Dentro de uma gaiola, deslumbrava-se com aqueles cenários que jamais imaginava existir passando diante de seus olhos, e imaginava se finalmente encontraria o sentido da vida. Talvez ele estivesse certo.
Seus momentos de paz foram interrompidos por uma mão que, segurando aos pescoços, tirava os frangos de dentro da gaiola. Acompanhada da outra mão, os pescoços eram torcidos. Depois de espernearem um pouco, os frangos caiam duros. Aquilo não podia ser bom. O frango já vira colegas imóveis do mesmo jeito antes. Malditos homens! Depois de mostrarem-lhe o mundo, o frango lhes serviria de comida!
“Seu besta!” A frustração impediu que o frango percebesse que já estava em mãos inimigas. “Este aqui está magrinho demais!” disse o homem ao outro. “Leve-o de volta. Acabaremos com o resto na semana que vem. E trate de dar mais comida!”. Sorte? Talvez. O frango fora poupado, mas só teria uma semana de vida. Pelo menos teria a chance de contar aos outros o que viu, e assim o fez.
Embora recebido com desconfiança, o fato de ser o primeiro a voltar lhe deu certo crédito. E o tumulto se espalhou pela granja. O que parecia um coro de cacarejos para os homens, era para os frangos debates de como enfrentar aquela situação.
-- Aproveitarei meus últimos momentos comendo o máximo que conseguir!
-- Tolo! Te engordar é exatamente o que eles querem! Deixaremos de comer!
-- Para que? Morrer antes da hora?
Em meio ao caos, outro exclamava: "Suicídio! Não deixaremos que os humanos prevaleçam!"
A tensão aumentava conforme as discussões se repetiam e os dias passavam. A morte não seria evitada, mas se o frango se mantivesse calado, a semana se seguiria tranquila. Passada as horas, ele nunca deixou de sonhar com aquele lugar com boa comida além do teto.
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